59. Devoradores de Gente
Estudo americano diz que leões de "Sombra e Escuridão" não tiveram alternativa
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O estudo de Yeakel e sua equipe é um bocado complexo, e se baseou na análise das proporções relativas de isótopos
estáveis de carbono e nitrogênio no colágeno de ossos e dentes, e na queratina dos pelos. Para isso usou amostras de
tecidos dos dois leões, de herbívoros diversos e leões da mesma região, e de humanos. Como os tecidos se regeneram em
velocidades diferentes, pode-se inclusive determinar a dieta média durante a vida toda (colágeno de ossos e dentes) e nos
últimos meses ou semanas de vida (queratina dos pelos).
Para os leões atuais a análise indicou uma dieta exclusiva de herbívoros (grazers). O leão FMNH 23969 apresentou um
resultado não muito diferente dos leões atuais, mas o outro (FMNH 23970), nos últimos meses de vida teria 30% de sua
dieta formada por carne humana. Este leão é o que apresenta sérios defeitos nos dentes e teria sido o principal matador, e
o outro deve ter se acostumado à carne humana ao partilharem a presa.
Outros pesquisadores ofereceram hipóteses para explicar o comportamento dos dois leões :
- A eclosão em 1898 de uma doença (Rinderpest disease) teria dizimado as presas usuais dos leões (herbívoros selvagens e
gado doméstico), obrigando-os a procurar outra fonte de alimento.
- Os leões teriam se acostumado a encontrar cadáveres nas imediações do vau do Rio Tsavo. Caravanas de escravos vindas de
Zanzibar passavam rotineiramente por ali.
- Cremação incompleta praticada por trabalhadores hindus da ferrovia. Os leões se habituaram a procurar os corpos e
desenterrá-los.
- Um dos leões tinha os dentes severamente danificados (já mencionado). Nem todas as presas naturais dos leões se limitam
a fugir, algumas revidam o ataque. Girafas e zebras podem dar coices extremamente violentos, as zebras podem galopar e
escoicear ao mesmo tempo (ver imagem). Um leão com a mandíbula fraturada é um leão morto, ele morrerá de fome. O leão FMNH
23970 pode ter levado um coice e ficado com os dentes defeituosos.
Quanto ao filme “A Sombra e a Escuridão” (“The Ghost and the Darkness”, 1996), considero-o um bom filme de aventura, com
ótima fotografia e boa trilha sonora. Mas tem pouco a ver com os fatos narrados pelo Cel. Patterson em seu livro “The
Man-Eaters of Tsavo and Others African Adventures”, publicado em outubro de 1907. O caçador profissional vivido por
Michael Douglas jamais existiu, por outro lado, o vagão-armadilha realmente foi utilizado e falhou. O ataque ao hospital
aconteceu.
Os leões treinados Bongo e César usados no filme, também aparecem em “George of the Jungle” de 1997, e são leões com juba,
ao contrário dos originais. Acredito que a produção não tosou a juba dos leões para as filmagens porque achou que o
público não aceitaria bem a imagem de leões sem juba.
A questão da falta de juba tem sido estudada, e causas como desequilíbrio hormonal (testosterona), parasitas e alimentação
foram avaliadas. Um nível excessivo de testosterona poderia provocar um efeito similar à calvície nos leões e torná-los
mais agressivos. Há inclusive casos documentados de uma situação oposta : leoas que desenvolveram jubas por desequilíbrio
hormonal.
O livro do Cel. Patterson tornou-se de imediato um best-seller e foi reeditado duas vezes ainda em 1907, todos os anos de
1908 a 1914, e depois em 1917 e 1919. Isso deve ter-lhe rendido um bom dinheiro, e Patterson ainda vendeu em 1924 as peles
e os crânios dos leões ao Field Museum de Chicago, por cinco mil dólares. É lá que os leões estão atualmente.
John Henry Patterson (1867-1947) nasceu na Irlanda e entrou para o Exército Britânico aos 17 anos. Lutou na Guerra dos
Boers e na 1ª. Guerra Mundial, e deixou o exército em 1920 após 35 anos de serviço. Passou seus últimos anos na Califórnia
junto com a esposa Francis, onde ambos faleceram. Apesar de protestante, foi um grande defensor do Sionismo, seu corpo foi
cremado e as cinzas enviadas para Israel.
Patterson foi comissionado em 1898 pela Companhia Britânica da África do Leste para supervisionar a construção da ponte
ferroviária sobre o rio Tsavo, e chegou à Mombasa, na costa, em 1º. de março. Viajou o mais depressa que pôde para Tsavo,
a mais de 160 quilômetros da costa, onde encontrou uma paisagem de árvores baixas e esquálidas, espessa vegetação rasteira
e espinheiros.
Poucos dias após sua chegada soube que dois leões haviam sido vistos nos arredores, e trabalhadores (eram indianos)
começaram a desaparecer. Inicialmente os ataques aos acampamentos muitas vezes fracassavam, mas logo os leões ganharam
experiência e se tornaram atrevidos. As “bomas” (cercas de espinhos) construídas depois em volta dos acampamentos não
detinham os ataques, os leões pulavam por cima ou encontravam um ponto mais fraco e forçavam a entrada. Fogueiras e
dispositivos barulhentos construídos com latas vazias não os assustavam. No início somente um entrava e o outro esperava
no mato, mas depois os dois passaram a entrar, o que dobrava a chance de pegarem alguém. Chegavam a devorar tranquilamente
suas presas a poucas dezenas de metros dos acampamentos, sem se perturbar com saraivadas de tiros disparados em sua
direção, no escuro. Os ruídos dos leões se alimentando era plenamente audível e apavorava os trabalhadores. Estes passaram
a acreditar que os leões eram demônios que não podiam ser mortos, e a coincidência infeliz do início dos ataques com a
chegada de Patterson fez com que lhe atribuíssem má sorte. Foram nove meses de ataques cada vez piores, até que em
dezembro o terror era tanto que a construção da ponte chegou a ficar paralisada por três semanas.
Patterson realizou incontáveis vigílias noturnas sem resultado, e até construiu um vagão-armadilha, mas quando um dos
leões finalmente se deixou apanhar, os atiradores indianos do outro lado das barras (trilhos de trem) ficaram tão
apavorados que apenas conseguiram feri-lo levemente. Uma bala perdida soltou uma das barras da porta e o leão escapou.
Este episódio do vagão-armadilha foi muito bem realizado no filme.
A morte do primeiro leão, 09/dezembro/1898 :
Pela manhã os leões haviam atacado um dos acampamentos, mas só conseguiram matar um burro. Ao seguir os rastros, Patterson
descobriu um dos leões escondido em um espesso matagal. Reunindo um bando de trabalhadores indianos, fez com que
avançassem em direção ao matagal, produzindo grande barulho com latas e gritos. Patterson colocou-se do lado oposto e
aguardou. Como esperado, o leão, perturbado pela barulhada crescente, abandonou o burro morto e fugiu exatamente na
direção do caçador. Patterson fez cuidadosa pontaria e puxou o gatilho, mas o rifle, que recebera emprestado recentemente,
falhou. O susto foi grande e Patterson esqueceu-se de disparar o cano esquerdo (Nota 1), pois estava acostumado com seu
próprio rifle, que era de repetição. Felizmente o leão só pensava em fugir e não o atacou. No último momento Patterson
disparou o cano esquerdo e atingiu o leão, sem detê-lo contudo.
Como o burro ainda estava quase inteiro, Patterson supôs que um dos leões poderia voltar à noite e mandou construir um
“machan” a uns três metros da carcaça, pois não havia qualquer árvore apropriada por perto. O “machan” tinha quatro metros
de altura, constituído por quatro postes cravados no chão, inclinados para dentro, sustentando no topo uma tábua que
servia de assento.
Ao anoitecer Patterson assumiu sua posição, e horas depois, na escuridão, ouviu o leão se aproximar denunciado por
ligeiros ruídos no mato. Mas o leão ignorou a carcaça do burro e ficou mais de duas horas rodeando o “machan” e rugindo.
Com os nervos à flor da pele, Patterson esperava que a qualquer momento o leão tentasse escalar a frágil estrutura ou
pulasse até ele. Como se não bastasse, uma coruja veio voando e chocou-se contra sua cabeça, dando-lhe tremendo susto.
Finalmente Patterson conseguiu distinguir a forma do leão o suficiente para tentar um disparo; o leão respondeu com
tremendo rugido e começou a saltar em todas as direções. Patterson não podia mais vê-lo mas continuou atirando
seguidamente na direção dos ruídos, que cessaram afinal. Só ao amanhecer Patterson desceu do “machan” e encontrou o leão
morto, atingido duas vezes : uma bala entrou atrás do ombro esquerdo e atingiu o coração, e a outra atingiu uma perna
traseira.
A falha do rifle, a espera no “machan” e até a coruja desnorteada aparecem no filme, mas de modo bem diferente.
A morte do segundo leão, 29/dezembro/1898 :
Por sorte o primeiro leão morto era o maior matador de pessoas, e Patterson não relata em seu livro novas mortes. Ele não
diz o dia exato em que, ao vigiar as carcaças de algumas cabras mortas pelo leão restante, conseguiu acertá-lo no ombro
usando uma espingarda de dois canos carregada com balas sólidas (slugs). O leão foi derrubado mas levantou-se e fugiu
antes que Patterson pudesse usar o rifle.
Menciona então que decorreram uns dez dias de calma, até que na noite do dia 27 o leão reapareceu e tentou agarrar alguns
indianos que dormiam em uma árvore, e ele só pôde espantá-lo a tiros. Na noite seguinte Patterson e seu ajudante Mahina
ficaram na mesma árvore, na esperança que o leão voltasse. E voltou mesmo; Patterson conta que ficou fascinado ao observar
a fera habilmente usar cada arbusto disponível para se aproximar desapercebida. Esperou o leão se aproximar bastante,
menos de vinte metros, e disparou seu rifle .303, acertando no peito, sem derrubá-lo. O leão fugiu em grandes saltos, e
mais três tiros foram disparados, acertando o último.
Logo que amanheceu, Patterson arranjou um rastreador nativo e também levou Mahina com uma carabina Martini. Haviam
percorrido menos de meio quilômetro quando o leão os atacou; o primeiro tiro somente o tornou mais furioso, e o segundo o
derrubou. Mas o leão se levantou e continuou avançando, e um terceiro tiro não causou efeito aparente. Ao tentar pegar a
Martini, Patterson descobriu que Mahina havia se apavorado e já estava no alto de uma árvore. Só restava a Patterson fugir
também para a árvore, o que conseguiu por pouco. O leão, apesar de uma perna traseira quebrada por um dos tiros, quase o
agarrou. Apoderando-se da carabina, Patterson atirou, e o leão caiu e ficou quieto. Empolgado, Patterson desceu da árvore
imprudentemente e dirigiu-se para o leão, que imediatamente se levantou e atacou de novo. Mas um tiro no peito e outro na
cabeça o mataram finalmente, e o leão tombou a menos de cinco metros de Patterson. Havia seis buracos de bala no corpo, e
Patterson encontrou também uma das balas da espingarda cravada superficialmente na carne.
No filme, além de muitas outras alterações, os roteiristas optaram por uma versão “politicamente correta”: o ajudante
negro, Mahina, não foge. Pelo contrário, ele vence seu medo dos leões e corre corajosamente para ajudar Patterson em
dificuldades.
Patterson encerra o caso dos dois leões contabilizando não menos de 28 indianos mortos e um número não determinado de
africanos.
Nota 1 : Hoje em dia quando se fala em arma longa de dois canos, logo pensamos em espingardas. Mas na época das
grandes caçadas na África e na Índia, durante o século XIX e início do século XX, quando os caçadores realmente se
arriscavam, era diferente. Muitos preferiam usar um rifle com dois canos, ao invés de um rifle de repetição. Apesar da
desvantagem do peso maior, os dois canos permitiam dois tiros seguidos quase simultâneos. Quando se tratava de animais
agressivos e ágeis como tigres e leões, essa era uma enorme vantagem. Se o primeiro tiro não derrubasse o animal, o tempo
de acionamento do ferrolho do rifle de repetição podia ser fatal. Foram fabricados rifles de dois canos nos mais variados
calibres, desde os menores como o .375 até o poderoso .577 Nitro Express.
A cidade de Mombasa, na costa, foi o ponto de entrada do
Cel. Patterson na África
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Patterson em frente à sua tenda
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Uma "boma" (cerca de espinhos)
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Plataforma de tiro sobre uma árvore
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O vagão-armadilha, que falhou
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A toca dos leões de Tsavo
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Um leão sem juba
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Patterson e o leão FMNH 23970, morto em 09/12/1898
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O leão FMNH 23969, morto em 29/12/1898
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Mandíbulas do leão FMNH 23970 : canino inferior direito
fraturado (e abscesso), incisivos inferiores faltando,
crescimento excessivo dos incisivos superiores direitos,
má oclusão do canino superior direito. Notar a forte
assimetria das mandíbulas.
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Detalhe das mandíbulas do leão FMNH 23969, mostrando
um dente carniceiro superior esquerdo fraturado, e a
polpa exposta.
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A magnífica dentadura de um dos leões do filme, sem
dúvida o resultado de muito trabalho do veterinário
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