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940.   A Busca Por Evidência Negativa

Tradução de página do site www.csicop.org


  Todo mundo adora um mistério. Resolva um em ciência, e louvores virão. Nem tanto, porém, no reino do paranormal, onde evidência, lógica e teorias frequentemente geram questionamentos. Enquanto cientistas forenses, digamos, começam com a evidência e a fazem levá-los à solução mais provável de um mistério, “paracientistas” começam tipicamente com a resposta desejada e trabalham para trás até a evidência, usando confirmação tendenciosa (confirmation bias) : eles procuram por aquilo que parece confirmar sua crença inicial e buscam desacreditar qualquer coisa – ou qualquer um – que argumente contra ela.

  Por exemplo, no campo paranormal da “criptozoologia” (um termo cunhado por Ivan T. Sanderson para descrever o estudo de animais “ocultos” ou não confirmados [Heuvelmans 1968, 508]), proponentes do Pé Grande oferecem uma grande quantidade de evidência. Infelizmente, ela é de qualidade muito pobre : relatos de testemunhas, moldes de pegadas, amostras de pelos – exatamente aquilo que é atribuível a percepção equivocada ou fraude. É tudo evidência questionável porque, hoaxes à parte, nenhum Pé Grande vivo, nem uma carcaça ou mesmo uma amostra de DNA está disponível para estudo científico.

  A mesma situação se mantém verdadeira para outras alegações. Elas incluem fenômenos psíquicos; fantasmas, poltergeists, e demônios; discos voadores e alienígenas; críptidos como o monstro do Lago Ness; combustão humana espontânea; cura pela fé e estátuas que choram; o Triângulo das Bermudas; e por aí vai, e vai. A ciência predominante não verificou como genuinamente paranormal nenhum desses objetos, entidades ou ocorrências.

Argumentando a Partir de Mistérios

  Paracientistas usualmente usam uma abordagem diferente. Para eles, investigação não é uma busca para explicar um mistério (que eles ironizam como “tentar uma explicação conveniente”) mas é, ao invés disso, colecionar mistérios sobre quaisquer paranormalidades em que eles acreditem, através dos quais eles esperam convencer outros de que “deve haver alguma coisa aqui”. Em resumo, eles não são detetives, mas fomentadores de mistérios.

  Para eles, o mistério é essencialmente um ponto final ao invés de um começo. Se não é prontamente explicado, eles não culpam uma falta de evidência; ao invés eles supõem em consequência que alguma coisa foi estabelecida : “Não sabemos o que fez o óleo aparecer sobre a estátua; logo, deve ser um sinal de Deus”. Mas isto é um tipo de falácia conhecida como argumentum ad ignorantiam, um argumento pela ignorância – isto é, desenvolver uma conclusão a partir de uma lacuna de conhecimento. Não se pode dizer “nós não sabemos” e então afirmar que, "portanto nós sabemos".

  E ainda este raciocínio muito falho está por trás da maioria das alegações paranormais : “Nós não podemos explicar o que causou a; deste modo, é provavelmente b”, onde a é o avistamento de um monstro peludo, ou luzes voadoras ou uma cura médica inesperada, e b é presumido ser, respectivamente, um Pé Grande, ou um disco voador, ou um milagre. Na realidade isso poderia ao invés ser, de novo respectivamente, um urso de pé, Venus visto através de camadas da atmosfera, ou o resultado de tratamento médico prévio.

Evidência Negativa

  Como o psicólogo Ray Hyman (1996, 23) observou sobre um campo do paranormal : “A história da parapsicologia está repleta de experimentos ‘bem sucedidos’ que subsequentemente não puderam ser replicados”. Mostrando que a assim chamada visão remota e outras supostas formas de ESP (ExtraSensory Perception = Percepção Extra-Sensorial) foram definidas negativamente - isto é, como um efeito remanescente depois que outras explicações normais foram supostamente eliminadas – Hyman notou que uma mera falha nos dados experimentais poderia então ser contada como evidência para os fenômenos psíquicos. “O que é necessário, é claro”, disse ele sabiamente, “é uma teoria positiva de funcionamento psíquico que nos permita dizer quando o psi está presente e quando está ausente” (ênfase no original). Ele acrescentou, “Até onde eu posso dizer, toda disciplina que afirma ser uma ciência lida com fenômenos cuja presença ou ausência pode ser claramente decidida”.

  Este requisito – esta necessidade – de evidência positiva ao invés de negativa é ignorado ou rejeitado pelos fomentadores de mistérios. Nos títulos de seus livros e documentários de TV, eles espalham palavras tais como não resolvido, inexplicado, desconhecido - apresentando não mistérios a ser investigados e resolvidos, mas enigmas supostamente eternos que provam (através do argumento pela ignorância) a existência do paranormal.

  Considere, por exemplo, as alegações de curas milagrosas em Lurdes, o santuário francês de cura. As alegações lá são derivadas não positivamente, mas a partir daqueles casos que foram classificados como “inexplicáveis pela medicina” – um clássico argumento pela ignorância. (Em 2008, entretanto, o Comitê Médico Internacional de Lurdes anunciou que a junta médica não estaria mais no negócio de milagres, daí em diante somente indicando se um caso é “notável”. Eles não estarão inferindo um milagre a partir do “medicamente inexplicável” [Nickell 2013, 183-185]).

  Em outros lugares, em “milagres” e outras alegações paranormais, o apelo à evidência negativa permanece de todo comum demais. Por exemplo :

- Grant Wilson, que fazia parceria com Jason Hawes no programa de TV Ghost Hunters, disse que sua abordagem para a caça de fantasmas era “terminar com somente aquelas coisas que você não pode explicar” (Hawes e Wilson 2007, 6).

- Larry Arnold (1995, 463), no seu livro Ablaze! The Mysterious Fires of Spontaneous Human Combustion, declara descaradamente : “Eu sou o primeiro a admitir que a SHC (spontaneous human combustion = combustão humana espontânea) desafia o senso comum e atinge o incognoscível. Eu não tenho todas as respostas para isto; eu posso não ter nenhuma das respostas. E certamente, eu não tenho todas as peças deste quebra-cabeças de enigmas”. Apesar disso, ele conclui, “O que posso dizer com confiança é isso : combustão humana espontânea (ou sobrenatural) acontece, embora tenha permanecido escondida”.

- Partidários dos círculos nas plantações sugeriram várias “teorias” para explicar os supostamente inexplicáveis padrões em campos de cereais na Inglaterra (apesar de extensas evidências de fraudes [Nickel 2004, 115-122]). Ken Rogers da Sociedade do Inexplicável opina, “Os círculos são de fato o resultado do pouso de UFOs para pesquisar as plantações. Não há outra explicação...” (Randles e Fuller 1990, 16).

Objetos Voadores Não Identificados

  Talvez em nenhum outro lugar a evidência negativa seja procurada e promovida mais avidamente do que por ovniologistas, cujo objeto de estudo começa com a expressão não identificado. Proeminente entre tais colecionadores foi Charles Fort (1874-1932). Algumas vezes considerado o “primeiro” ovniologista (Clark 1998, I: 420), Fort foi um fornecedor de gabinete de estranhos mistérios. Tendo recebido uma herança que lhe permitiu cultivar seu hobby, ele gastou seus últimos vinte e seis anos esquadrinhando velhos jornais em busca de relatos de ocorrências incomuns – incluindo fenômenos aéreos anômalos – que ele desafiava os cientistas “ortodoxos” a explicar (Fort 1941). Não somente sua evidência era anedótica e sua abordagem não investigativa, mas sua “documentação nem sempre era completamente acurada” (Gross 2001, 204).

  Não obstante, Fort é o querido de muitos ovniologistas e outros colecionadores de fenômenos que supostamente “desafiam explicações naturais”, que eles denominam “fenômenos fortianos” ou “fortianos”, assim chamados por causa dele (Guiley 2001, 212-213; Gross 2001, 203-205; Clark 1998, 420-425).

  Um dos mais importantes ovniologistas da história foi o astrônomo J. Allen Hynek (1910-1986), que foi consultor e auto-denominado “desmascarador” (debunker) no Projeto Livro Azul de investigação de OVNIs da Força Aérea Americana. Hynek (1977, 7-9, 17) ficou impressionado porque, em princípio, 23 por cento dos OVNIs que ele estudou permaneceram “desconhecidos” e – tendo vindo a fundar o Centro para Estudo de UFOs (CUFOS) – aderiu à evidência negativa.

A transformação de “cético” para – ou melhor, “não crente” porque o primeiro termo tem certas conotações “teológicas” – de um cientista que sentiu que estava na pista de um fenômeno interessante foi gradual, mas no final dos anos 1960 estava completa : “Hoje eu não gastaria um momento adicional no assunto dos OVNIs se eu não sentisse seriamente que o fenômeno OVNI é real e que esforços para investigar e entendê-lo, e eventualmente resolvê-lo, poderiam ter um profundo efeito – talvez mesmo ser o trampolim para uma revolução da visão do homem de si mesmo e do seu lugar no universo.”

Hynek não obstante tornou-se cauteloso sobre a hipótese extraterrestre, notando que “isto cria uma dificuldade muito grande, especificamente, que estamos vendo OVNIs demais. A Terra é somente um ponto de poeira no Universo. Por que ela seria privilegiada com tantas visitas?” Ao invés, ele disse, “Estou mais inclinado a pensar em termos de algo metaterrestre, um tipo de realidade paralela”, propondo “que os OVNIs estão relacionados com certos fenômenos psíquicos” (Story 2001, 252). Deste modo ele tentou “explicar” algo desconhecido invocando outro!

  Hoje, ovniologistas tais como Peter B. Davenport, diretor do Centro de Reportagem Nacional de OVNIs (NUFORC = National UFO Reporting Center), acreditam que o grande número de não identificados indica pelo menos alguma coisa muito importante por trás. Dadas “as impressionantes quantidades de dados principalmente de testemunhas”, diz Davenport, embora a maior parte das descrições de testemunhas seja de baixa qualidade, “muitos dos relatos de avistamentos de alta qualidade envolvem certos aspectos objetivos, os quais, para um observador de mente aberta, são bastante impressionantes”. Ele acrescentou : “Forte evidencia sugere que estamos lidando com um fenômeno que está sendo causado por objetos sólidos palpáveis cujas características não são de padrão humano, e cujo comportamento é sugestivo de controle inteligente” (Story 2001, 150). Ele está, é claro, insinuando extraterrestres – embora disfarçadamente – enquanto os “objetos” continuam não identificados.

  Outro que cita a natureza inexplicada dos OVNIs é Richard Hall, um defensor dos OVNIs associado a grupos como o MUFON e CUFOS. Ele enfatiza : “Entre as centenas de assim chamados ‘relatos de OVNIs’ a cada ano, uma considerável fração daqueles claramente observados por testemunhas respeitáveis permanecem inexplicados – e difíceis de explicar em termos convencionais”. Ele acredita que : “Coletivamente, estes casos constituem um genuíno mistério científico, com uma prejudicial falta de investigação sistemática e bem sustentada”. De novo ele diz : “A evidência circunstancial – e algumas vezes física – indica que algo real está acontecendo para o qual não existe presentemente explicação satisfatória”.

  Hall acredita que observações enganosas de objetos terrestres tanto quanto “hoaxes/imaginação” devem ser rejeitados como explicações porque são “inaplicáveis aos casos inexplicados mais fortes”. Ele prefere ao invés a possibilidade dos “assim chamados visitantes comuns de outro lugar” (Story 2001, 239).

  Mesmo o vacilante ovniologista/folclorista Thomas E. Bullard (2010, 311) sugere, pelo menos tentativamente :

“Investigadores de relatos atuais e históricos de OVNIs rejeitaram casos com evidência credível suficiente para qualificá-los como defensáveis. Estes casos sugerem que o caráter das narrativas de OVNIs depende de alguma forma do caráter dos eventos de OVNIs, e estes eventos devem seu caráter a uma fonte independente da mitologia OVNI... Mesmo levando em conta a falibilidade humana e auto-engano, um mistério genuíno parece ter ficado.”

Bullard está claramente contando com o processo de eliminação, método que é a base da evidência negativa.

  Depois há Stanton T. Friedman, que promove a noção de visitação extraterrestre com bravatas, cortinas de fumaça e sensacionalismo. Ele racionaliza : “Aprendi cedo que ausência de evidência não é o mesmo que evidência de ausência”. Bastante verdadeiro, mas ele ainda fica com a ausência de evidência. Friedman, uma vez auto-descrito um “físico nuclear itinerante”, foi enganado pelos “documentos MJ-12” forjados de modo amadorístico que pretendiam provar que o governo americano havia resgatado um disco acidentado e seus ocupantes humanóides – provando, acredita Friedman, que evidência positiva tem sido ocultada por uma conspiração de alto nível (Friedman 1996, 8, 13, 209-219; Nickell with Fisher 1992, 81-105).

Conclusão

  O problema com toda essa tal grandiosa extrapolação dos dados é que lhe falta evidência positiva. Nenhum disco voador ou piloto extraterrestre foi jamais capturado – apesar dos hoaxes, lendas populares e alegações de conspiração. Só há relatos de testemunhas, fotos, sinais no solo, e similares – tudo de alguma coisa não identificada.

  Mas todas esses “não identificados” não contam para alguma coisa? Bem, quantidade não é qualidade. Como evidência extensiva mostra, casos outrora firmemente não explicados eram somente isso; eles não eram inexplicáveis, e, de fato, muitos deles têm desde então sucumbido à investigação. Nenhum provou ser alguma coisa outra que um fenômeno natural ou de origem humana – nem mesmo casos clássicos, como por exemplo, Roswell, Rendlesham Forest, Flatwoods, Kecksburg, Exeter, Phoenix, e Stephenville (Nickell e McGaha 2012; McGaha e Nickell 2011, 2015). Alguns casos podem nunca ser explicados por causa de erros originais de testemunhas, evidência falsificada, falta de informação essencial, ou outras falhas. Por razões similares alguns assassinatos permanecem não resolvidos, contudo não consideramos esses casos como evidência de um gremlin homicida.

  Nada do que foi dito significa que não devemos continuar a investigar fenômenos inexplicados, incluindo OVNIs. Afinal, o ceticismo de outrora sobre pedras flamejantes caindo dos céus finalmente abriu caminho para a prova da existência de meteoritos. A ciência não tem nada a temer do exame de relatos de OVNIs, os quais, até o momento, não foram afinal inúteis : aprendemos muito sobre ilusões, percepções erradas e fantasia, sobre traços de personalidade, sobre fenômenos raros tais como raios bola, sobre a propensão de pessoas imaturas para perpetrar hoaxes (céticos incluídos!), e muito mais. Mas a investigação deve ir além de apenas coletar evidência negativa. Ela deve representar uma tentativa real para resolver – isto é, para explicar – um mistério.

Fonte : www.csicop.org

Autor : Joe Nickell e James McGaha

Referência : Skeptical Inquirer Volume 39.6, November/December 2015





Veja também:

Sobre as Origens da Ufologia Mística

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