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972.   O Notável Dinossauro Encontrado (Acidentalmente) por Mineiros no Canadá

Conhecido como nodossauro, este herbívoro encouraçado de 110 milhões de anos é o fóssil mais bem preservado de sua espécie já encontrado


  Na tarde de 21 de março de 2011, um operador de equipamento pesado chamado Shawn Funk estava abrindo caminho através da terra, inconsciente que breve iria encontrar um dragão.

  Aquela segunda-feira tinha começado como qualquer outra na mina Millennium, um enorme buraco a umas 17 milhas (27 km) ao norte do Forte McMurray, Alberta, operada pela companhia de energia Suncor. Hora após hora a enorme escavadeira engolia ruidosamente, abrindo seu caminho para baixo nas areias impregnadas de betume – os restos transformados de plantas e criaturas marinhas que viveram e morreram mais de 110 milhões de anos atrás. Era a única vida antiga que ele via regularmente. Em 12 anos de escavações ele tinha tropeçado em madeira fossilizada e um ocasional toco de árvore petrificado, mas nunca os restos de um animal – e certamente nenhum dinossauro.

  Mas por volta das 13:30, a pá da escavadeira travou em algo muito mais duro do que a rocha circundante. Saliências estranhamente coloridas rolaram para fora da vala, deslizando para o banco abaixo. Em minutos Funk e seu supervisor, Mike Gratton, começaram a examinar as enigmáticas rochas marrons como uma noz. Eram tiras de madeira fossilizada, ou eram costelas? E então eles viraram para cima uma das saliências e revelaram um padrão bizarro: fileira após fileira de discos de cor amarelo amarronzado, cada um circundado por rocha cinza aço.

  “E agora, e Mike concordou, temos que verificar isto”, disse Funk em uma entrevista de 2011. “Não era definitivamente nada que já tivéssemos visto antes.”

A uns 110 milhões de anos atrás, este herbívoro encouraçado caminhava pesadamente pelo que é hoje o oeste do Canadá, até que a cheia de um rio o varreu para alto mar. O sepultamento do dinossauro sob o mar preservou sua armadura com esquisitos detalhes. Seu crânio ainda apresenta placas como telhas e uma pátina cinza de pele fossilizada

Representação artística do nodossauro por Davide Bonadonna

  Cerca de seis anos mais tarde, estou visitando o laboratório de preparação de fósseis do Museu Real Tyrrell nas terras selvagens varridas pelo vento de Alberta. O cavernoso galpão ressoa com o murmúrio da ventilação e o zumbido de técnicos arrancando a rocha de ossos com ferramentas com ponta de agulha parecendo britadeiras miniatura. Mas o meu foco está em uma massa de pedra com 2.500 libras (1.134 kg) a um canto.

  À primeira vista os blocos cinzentos rearrumados parecem com uma escultura de dinossauro com 9 pés (2,7 m) de comprimento. Um mosaico ósseo de armadura cobre seu pescoço e costas, e círculos cinzentos destacam escamas individuais. Seu pescoço curva-se graciosamente para a esquerda, como se tentando alcançar alguma planta saborosa. Mas isto não é uma escultura imitando um ser vivo. É um dinossauro verdadeiro, petrificado do focinho aos quadris.

  Quanto mais olho para ele, mais espantoso se torna. Restos fossilizados de pele ainda cobrem as placas salientes da armadura pintalgando o crânio do animal. Sua pata dianteira direita repousa ao seu lado, com os cinco dedos esticados para cima. Posso contar as escamas em sua sola. Caleb Brown, um pesquisador pós-doutorando do museu, sorri da minha estupefação. “Nós não temos aqui apenas um esqueleto”, disse-me ele mais tarde. “Temos um dinossauro como ele foi”.

Em vida este imponente herbívoro – chamado nodossauro – se alongava por 18 pés (5,5 m) de comprimento e pesava próximo de 3.000 libras (1.361 kg). Os pesquisadores inicialmente suspeitaram que tivesse se fossilizado inteiro, mas quando foi descoberto em 2011, só a metade da frente, do focinho aos quadris, estava ainda intacta o suficiente par recuperação. O espécime é o melhor fóssil de nodossauro já encontrado

Um aglomerado de massas parecidas com seixos pode ser os restos da última refeição do nodossauro

O técnico Mark Mitchel do Museu Real Tyrrell lentamente liberta o pé e a escamosa planta do pé da rocha circundante. O cuidadoso trabalho de Mitchel preservará pelos anos vindouros as enigmáticas características do animal

  Para os paleontologistas o notável grau de fossilização do dinossauro – causado por seu rápido sepultamento sob o mar – é tão raro quanto ganhar na loteria. Usualmente somente os ossos e dentes são preservados, e só raramente os minerais substituem os tecidos moles antes que eles apodreçam. Também não há garantia de que um fóssil manterá sua forma de quando vivo o animal. Dinossauros emplumados encontrados na China, por exemplo, foram esmagados, e os dinossauros bico-de-pato “mumificados” da América do Norte, entre os mais completos já encontrados, parecem murchos e ressecados pelo Sol.

Durante seu sepultamento no mar, o nodossauro se acomodou sobre suas costas, pressionando o esqueleto para dentro da armadura e nela formando relevos com os perfis de alguns ossos. Uma ondulação na armadura identifica o omoplata direito do animal

  O paleobiologista Jakob Vinther, um especialista em coloração de animais da Universidade de Bristol do Reino Unido, estudou alguns dos melhores fósseis do mundo por sinais do pigmento melanina. Mas depois de quatro dias trabalhando nesse – removendo delicadamente amostras menores que flocos de parmesão ralado – mesmo ele está atônito. O dinossauro está tão bem preservado que ele “poderia ter estado andando por aí duas semanas atrás”, diz Vinther. “Eu nunca vi antes algo como isso.”

  Um poster do filme “Uma Noite no Museu” pende na parede atrás de Vinther. Nele o esqueleto de um dinossauro emerge das sombras, magicamente trazido de volta à vida.

  O notável fóssil é uma espécie (e gênero) recém descoberta de nodossauro, um tipo de anquilossauro frequentemente ofuscado pelos seus famosos primos no subgrupo Anquilossaurídeos. Ao contrário dos anquilossauros, os nodossauros não tinham maças quebradoras de tíbias na cauda, mas eles também exibiam armadura espinhenta para deter predadores. Conforme caminhava pesadamente pela paisagem entre 110 e 112 milhões de anos atrás, quase no meio do período Cretáceo, o beemote com 18 pés (5,5 m) de comprimento e perto de 3.000 libras (1.361 kg) foi o rinoceronte dos seus dias, um herbívoro rabugento que podia cuidar muito bem de si mesmo. E se alguma coisa aparecesse – talvez o apavorante Acrocanthosaurus - o nodossauro tinha mesmo o truque: dois espigões com 20 polegadas (51 cm) de comprimento sobressaindo de seus ombros como um par de chifres de touro no lugar errado.

As placas típicas dos dinossauros encouraçados usualmente se dispersavam quando da deterioração, um destino do qual escapou este nodossauro. A armadura notavelmente preservada aprofundará o conhecimento dos cientistas de como o nodossauro se parecia e como ele se movia

  O oeste do Canadá que esse dinossauro conheceu era um mundo muito diferente das planícies brutalmente frias e varridas pelo vento que encontrei este outono passado. No tempo do nodossauro, a área se parecia com o atual sul da Flórida, com brisas quentes e úmidas soprando através de florestas de coníferas e prados cheios de samambaias. É até mesmo possível que o nodossauro tivesse encarado um oceano. No início do Cretáceo, a subida das águas abriu um canal marítimo terra a dentro que cobriu muito do que é hoje Alberta, sua costa oeste lambendo o leste da Colúmbia Britânica, onde o nodossauro pode ter vivido. Atualmente esses antigos leitos marinhos jazem enterrados sob florestas e campos ondulantes de trigo.

  Em um dia de azar esse animal de terra firme acabou morto em um rio, possivelmente varrido por uma enchente. A carcaça com a barriga para cima seguiu seu caminho rio abaixo – mantida flutuando por gases que bactérias expeliram em sua cavidade corporal – e eventualmente alcançou o canal marítimo, supõem os cientistas. Ventos empurraram a carcaça para leste, e depois de uma semana ou perto disso flutuando, a carcaça inchada estourou. O corpo afundou de costas até o leito do oceano, levantando uma sopa de lama que o engolfou. Minerais infiltraram a pele e armadura e formaram um suporte para suas costas, assegurando que o nodossauro morto mantivesse sua forma de quando em vida conforme eons de rocha se empilhavam sobre ele.

  A imortalidade da criatura decorreu de cada elo desta improvável cadeia de eventos. Se ela tivesse derivado outras poucas centenas de pés neste antigo mar, teria se fossilizado além dos limites da propriedade da Suncor, mantendo-a sepultada. Ao invés disso Funk tropeçou no mais antigo dinossauro já encontrado em Alberta, congelado em pedra como se tivesse fitado os olhos de Medusa.

  “Esse foi uma descoberta realmente excitante”, diz Victoria Arbour, uma paleontologista de dinossauros encouraçados do Museu Real Canadense de Ontario. Arbour viu o fóssil em vários estágios de preparação, mas ela não está envolvida no estudo. “Ele representa um ambiente tão diferente do atual e uma época tão diferente, e tem uma excepcional preservação.” (Arbour começou a estudar um anquilossauro similarmente bem preservado encontrado em Montana em 2014, muito do qual permanece escondido no interior de um bloco de pedra de 35.000 libras (15.900 kg). Em 10 de maio, Arbour e seu colega David Evans publicaram uma descrição do anquilossauro de Montana, chamando-o Zuul crurivastator - “Zuul, destruidor de tíbias” – em homenagem ao monstro do filme Ghostbusters).

Uma fratura de sorte no espigão do ombro esquerdo do nodossauro revela a seção reta do seu núcleo ósseo. A ponta do espigão é revestida de queratina, o mesmo material encontrado nas unhas humanas

  O espécime canadense literalmente desafia as palavras, em mais de um modo. Quando este artigo chegou à mídia, a equipe do museu estava finalizando a descrição científica da criatura e ainda não tinha chegado a um acordo comum sobre um nome para ele. (“Mrs. Prickley”, uma referência para um personagem canadense de comédias, não vingou.) Mas o fóssil já está fornecendo novos entendimentos sobre a estrutura da couraça do nodossauro. Reconstruir a couraça geralmente requer criatividade treinada, pois as placas ósseas, chamadas osteodermas, dispersam-se logo no início do processo de decomposição. Não só os osteodermas neste nodossauro preservaram seu lugar, mas também traços das escamas entre elas.

  Ainda mais, camadas outrora formadas por queratina – o mesmo material encontrado nas unhas humanas – ainda revestem muitas das osteodermas, permitindo aos paleontologistas ver precisamente como essas camadas exageraram o tamanho e forma da armadura. “Tenho chamado esta a pedra da Roseta para as armaduras”, diz Donald Henderson, curador de dinossauros do Museu Real Tyrrell.

  Libertar esta pedra da Roseta do seu túmulo rochoso, entretanto, provou ser uma tarefa hercúlea.

  Depois que a notícia da descoberta galgou a hierarquia da Suncor, a companhia rapidamente informou o Museu Real Tyrrell. Henderson e Darren Tanke, um dos técnicos veteranos do museu, correram a bordo de um jato da Suncor e voaram até Fort McMurray. Escavadores da Suncor e a equipe do museu cortaram através da rocha em turnos de 12 horas, envolvidos em poeira e fumaça de diesel.

  Eventualmente eles destacaram uma rocha de 15.000 libras (6.800 kg) contendo o dinossauro, pronta para ser içada para fora do buraco. Mas com as câmeras rodando, aconteceu o desastre: quando era içada, a rocha despedaçou-se, partindo o dinossauro em vários pedaços. O interior do fóssil parcialmente mineralizado, semelhante a um bolo, simplesmente não pôde suportar o próprio peso.

  Tanke passou a noite imaginando um plano para salvar o fóssil. Na manhã seguinte o pessoal da Suncor envolveu os fragmentos em gesso, enquanto Tanke e Henderson procuravam por qualquer coisa para estabilizar o fóssil em sua longa viagem para o museu. Em lugar de vigas de madeira, a equipe usou aniagem embebida em gesso e enrolada imitando toras.

  O plano semelhante aos do MacGyver funcionou. Umas 420 milhas (670 km) mais tarde a equipe chegou ao laboratório de preparação do Museu Real Tyrrell, onde os blocos foram confiados ao preparador de fósseis Mark Mitchell. Seu trabalho no nodossauro exigiu o toque de um escultor: durante mais de 7.000 horas durante os cinco anos passados, Mitchell lentamente expôs a pele e ossos do fóssil. O meticuloso processo é como separar talco comprimido de concreto. “Você tem quase que lutar por cada milímetro”, diz ele.

Sobre o torso do nodossauro, saliências marrom chocolate aparecem perto de osteodermas castanho claro e escamas cinza escuro. Tendões que outrora suportaram a cauda do dinossauro (parte superior) correm ao longo de sua espinha, preservados como bandas marrom escuro parecendo carne seca

  A luta de Mitchell está perto do fim, mas levará anos, para se entender completamente o fóssil que ele revela. Seu esqueleto, por exemplo, permanece em sua maior parte oculto na pele e armadura. De certo modo ele está bem preservado demais; alcançar os ossos do dinossauro iria exigir destruir suas camadas externas. Tomografias computadorizadas financiadas pela National Geographic Society revelaram pouco, porque a rocha permanece teimosamente opaca.

  Para Vinther as características mais revolucionárias do fóssil do nodossauro podem estar na sua menor escala: restos microscópicos de sua coloração original. Se ele reconstruir com sucesso sua distribuição, poderia ajudar a revelar como o dinossauro navegava em seu ambiente e usava a sua considerável armadura.

  “Sua couraça claramente fornecia proteção, mas aqueles chifres elaborados na frente de seu corpo poderiam ter sido mais como uma propaganda”, diz ele. Este anúncio poderia ter ajudado a atrair parceiros para acasalamento ou intimidar rivais – e podem ter aparecido contra um fundo avermelhado. Testes químicos da pele do dinossauro indicaram a presença de pigmentos avermelhados, contrastando com a coloração marcadamente clara dos chifres.

  Em maio o Museu Real Tyrrell revela o nodossauro como a peça central de uma nova exposição de fósseis recuperados de locais industriais de Alberta. Agora o público está se maravilhando com aquilo que impressionou os cientistas pelos seis anos passados: um embaixador do passado distante do Canadá, encontrado em uma paisagem lunar por um homem com uma escavadeira.

Fonte : National Geographic, 05/2017

Autor : Michael Greshko

Fotógrafo : Robert Clark



Veja também:

Researchers reveal the rhino-sized 'four legged tank' dinosaur so well preserved it looks like a statue was actually hunted by meat-eating predators (Daily Mail, 03/08/2017)

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