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995.   O "Verdadeiro" Mapa de Piri Reis


  Este é um OOPArt dos mais conhecidos e importantes para os adeptos dos deuses astronautas e das civilizações perdidas. Ele tem a vantagem de ser indiscutivelmente autêntico, de modo que só foi preciso acrescentar uma boa dose de fantasia para que se tornasse uma forte evidência a favor das idéias dos “adeptos do fantástico”, como Erich Von Däniken (deuses astronautas) e Graham Hancock (civilizações perdidas). Esses autores simplesmente inventaram características que o mapa não apresenta, como ser extraordinariamente preciso e mostrar acidentes geográficos desconhecidos na época, como o Continente Antártico e os Andes. Quaisquer erros no mapa são atribuídos ao fato de ser uma cópia de originais há muito tempo perdidos. O mais curioso é que as próprias inscrições no mapa desmentem as alegações desses senhores.

. Piri Reis e o Mapa

  Piri Reis, ou Almirante Piri, é como ficou conhecido o almirante, geógrafo e cartógrafo otomano, Ahmed Muhiddin Piri (1465/70 – 1553). Publicou em 1521 uma notável coleção de mapas e cartas em seu Kitab-i Bahriye (Livro do Mar). A obra foi revisada em 1524-1525 com o objetivo de ser um presente para o sultão Suleimã I. Esta edição revisada tinha 434 páginas contendo 290 mapas.

  Para construir seus mapas, Piri Reis consultou mapas de origem árabe, espanhola, portuguesa, chinesa, indiana e também mapas gregos antigos, reunindo tudo em imagens do mundo conhecido de sua época. Em seu famoso primeiro Mapa Mundi de 1513, ele escreveu: “Essas terras e ilhas são desenhadas a partir do mapa de Colombo”. Dentro desse contexto histórico, nada mais natural do que encontrar nos mapas de Piri Reis os erros e omissões oriundos das falhas no conhecimento geográfico características de sua época.

  Os mapas são desenhados no estilo "portulano", isto é, ainda não usam latitudes e longitudes, mas informam direções e distâncias aproximadas através de um sistema de retas que se originam de uma rosa-dos-ventos principal e outras acessórias.

  Do seu Mapa Múndi de 1513 só resta, infelizmente, um terço. Neste fragmento estão representados parte da costa oeste da Europa, o norte da África, o Brasil e várias ilhas do Oceano Atlântico incluindo os Açores e as Canárias. Também aparecem a mítica ilha de Antillia e provavelmente o Japão. O fragmento foi descoberto acidentalmente pelo teólogo alemão Gustav Adolf Deissmann, contratado pelo Ministro da Educação turco para catalogar itens não-islâmicos da biblioteca do Palácio Topkapi. O mapa continua guardado na biblioteca do Palácio Topkapi, mas usualmente não é exibido para o público.

. A Construção do Mito

  O primeiro nome que encontramos ligado a interpretações não-ortodoxas do mapa de Piri-Reis é o do engenheiro civil americano, Arlington H. Mallery, que trabalhou para o Departamento da Hidrografia da Marinha dos Estados Unidos, e que também foi arqueólogo amador. Ele defendeu a idéia de um contato pré-colombiano entre colonos nórdicos europeus e os nativos americanos, e chegou a escrever um livro sobre sua tese: ”Lost America: The Story of the Pre-Columbian Iron Age in America”, publicado em 1951.

  Quando em 1956 um oficial da marinha turca entregou uma cópia do mapa ao Departamento de Hidrografia, ele foi examinado por M. I. Walters, que o mostrou a Mallery. Os dois fizeram um exame minucioso e chegaram a conclusões surpreendentes, como por exemplo: identificaram a parte inferior do mapa como uma representação da Terra da Rainha Maud, na Antártida, que era desconhecida na época de Piri Reis. Mas a análise que Mallery fez foi influenciada pelo desejo de provar a sua tese de colonização da América por povos nórdicos europeus: ele viu nos mapas o que desejava ver (veja aqui uma análise extraída da Referência [12]).

  Seu estudo foi encaminhado a Daniel Lineham, do Observatório Weston, que o aprovou. Neste ponto é conveniente que o internauta dê uma olhada na versão de Erich Von Däniken (clicar aqui) em seu “Eram os Deuses Astronautas?” de 1968, onde ele aproveita a deixa para concluir que o mapa só poderia ter sido desenhado com base em outro mapa obtido a partir de fotografias aéreas! Mallery e Lineham participaram em agosto de 1956 de um programa de rádio em que o assunto foi tratado, e aqui a construção do mito entra em nova etapa.

Charles Hapgood (e aqui), um professor universitário, era partidário da idéia de que a delgada crosta da Terra é inteiriça e desliza ao redor do interior pastoso. O acúmulo de gelo nos pólos provocaria periódicos desequilíbrios e deslocamentos da crosta, alterando de forma brusca o clima, com expansões e contrações dos glaciares. Em 1958 ele publicou um livro intitulado “The Earth’s Shifting Crust”, prefaciado por Albert Einstein, que, no entanto sugeriu correções. Hapgood acatou as sugestões de Einstein , e o livro revisado foi publicado em 1970 com o título “The Path of the Pole”. Este último, junto com o “Maps of the Ancient Sea Kings” (1966), propunham a hipótese de que o eixo da Terra havia se deslocado muitas vezes ao longo da sua história geológica. Atualmente essa idéia está completamente ultrapassada pelo modelo das placas tectônicas.

  Pois Hapgood teve conhecimento do programa de rádio e ficou interessado; entrou em contato com Mallery, com o qual obteve uma cópia do mapa. Ele e seus alunos analisaram intensivamente durante sete anos não só o mapa de Piri Reis, como outros mapas antigos, e a conclusão foi que realmente mostravam uma Antártida livre da cobertura de gelo, o que só poderia ter acontecido milhares de anos atrás. Deste modo, em 1966 Hapgood publicou um livro intitulado “Maps of the Anciente Sea Kings”, onde apresentava sua conclusão sobre a existência de uma civilização avançada há cerca de 12.000 anos atrás. Esta civilização teria recursos tecnológicos para mapear todo o globo terrestre de forma extremamente precisa, mas foi inteiramente destruída pelo deslocamento da crosta terrestre, nada restando dela a não ser os mapas, que foram copiados várias vezes ao longo dos milênios, com um consequente acúmulo progressivo de erros. Não há dúvida que Hapgood fez um trabalho sério, basta ler as Referências [11], [12], [13] e [14]. O problema é que seu estudo envolveu um grande número de hipóteses e correções nos cálculos, para que os mapas construídos a partir dos portulanos se ajustassem razoavelmente à sua hipótese inicial, isto é, que os portulanos eram cópias grosseiras de mapas muito antigos feitos com o mesmo rigor dos atuais. A conclusão extraordinária a que ele chegou também não ajudou perante o mundo acadêmico, de modo que seu trabalho foi praticamente ignorado, relegado à condição de pseudociência.

  Uma questão interessante a considerar é se Hapgood, mesmo com todos os esforços em fazer uma pesquisa séria, conseguiu ser imparcial na análise dos mapas, uma vez que seu único interesse neles era usá-los como evidência para a hipótese do deslocamento dos pólos. Outra coisa interessante é que uma conclusão errada por parte de Mallery e Hapgood, levou este último à necessidade de “inventar” toda uma civilização perdida! Esta conclusão se tornou um prato feito para os “adeptos do fantástico”, que podiam então atribuir os OOPArts espalhados pelo mundo a ela, e até identificá-la com a Atlântida.

  Hapgood também defendeu a autenticidade das estatuetas de Acámbaro, que mostram humanos e dinossauros juntos, e passou cerca de dez anos fazendo pesquisas espíritas junto ao médium americano Elwood Babbitt.

  Com o caminho pavimentado por Hapgood, autores como Erich Von Däniken e Graham Hancock só tiveram praticamente o trabalho de citá-lo como referência sólida para vender ao público ávido pelo mistério e pelo fantástico suas versões de história alternativa. Centenas de sites e blogs simpatizantes ao longo dos anos se encarregaram de divulgar o mito, de modo que o admirável trabalho de Piri Reis ficou reduzido a uma lenda da Internet, com o público perdendo inteiramente o contexto histórico. A seguir veremos como são falsas as alegações desses “adeptos do fantástico”.

. Trazendo de Volta o "Verdadeiro" Mapa

  O melhor texto sobre o assunto que encontramos é a Referência [6], de autoria de Diego Cuogli, um historiador da arte, escritor e artista, e cuja leitura integral recomendamos aos internautas. Ele mostra que o mapa apresenta exatamente as imperfeições previsíveis em um trabalho de cartografia do século XVI, estando longe da perfeição propalada por aqueles interessados em vender a idéia de intervenções de extraterrestres ou civilizações perdidas.

REGIÃO DO CARIBE

  Cuogli sugere que a parte superior esquerda do mapa, que parece ser o Caribe, não o é realmente, e a grande ilha que aparece em posição vertical no mapa não deve ser identificada com Cuba:

  Naquela época pensava-se que o globo terrestre era muito menor, com a Ásia sendo banhada pelo Oceano Atlântico. Mesmo quando os exploradores perceberam que haviam descoberto um novo continente, o nome “América” era aplicado somente ao que é hoje conhecido como América do Sul. Ainda se acreditava que as terras ao norte do Caribe pertenciam à Ásia, e que o Japão ficava logo a oeste de Cuba. Essa parte do mapa representaria então a costa leste da Ásia, como representada em mapas que Colombo provavelmente usou. A grande ilha seria então o Japão (Cipango) conforme aparece no globo de Martin Behaim, 1492:

  Cuogli observa que outros mapas datados dos primeiros anos da década de 1500 (veja aqui), são mais precisos que o de Piri Reis na representação de Cuba, Jamaica e Porto Rico:

AMÉRICA DO SUL

  A figura a seguir mostra uma comparação entre o mapa de Piri Reis e a representação atual da América do Sul. A parte inferior do continente foi torcida para a direita na apresentação de Piri Reis, o que provocou a confusão com a Antártida, que será analisada mais adiante.

  “Adeptos do fantástico” alegam que a grande cadeia de montanhas representa os Andes, inclusive com um lhama. Como a cordilheira dos Andes ainda não era conhecida na época, essa interpretação reforça seus pontos de vista. O argumento porém é fraco, pois o mapa poderia estar mostrando montanhas vistas a partir da costa, e o animal poderia ser um herbívoro qualquer com chifres. Ou então Piri Reis simplesmente quis mostrar os rios nascendo nas montanhas e desaguando no mar.

A ANTÁRTIDA?

  Na parte inferior do mapa de Piri Reis os “adeptos do fantástico” alegam estar representadas com perfeição a Terra da Rainha Maud e outras características da topografia antártica:

  A primeira coisa a ser questionada quanto à hipotética representação da Antártida e à “admirável exatidão do mapa”, é como ficam faltando 1.900 quilômetros do Brasil até a Terra do Fogo, ou por que Brasil e Antártida estão fundidos, com falta dos 4.000 quilômetros que os separam!

  Cuogli faz uma comparação entre um mapa atual da Argentina e a parte inferior do mapa de Piri Reis, com a ressalva de que os cartógrafos da época trabalhavam com relatos de viagens, nos quais se mencionavam cabos, ilhas, embocaduras de rios, golfos, etc. Deste modo os mapas juntavam informações não perfeitamente correlacionadas entre si, e sem medições precisas.

  Ele sugere serem reconhecíveis o Golfo de São Matias, a Península Valdés, a entrada do Estreito de Magalhães e a Terra do Fogo. No canto inferior direito do mapa de Piri Reis onde se vê uma cobra, está escrito: “Esta terra é uma perda de tempo. Tudo está em ruínas e diz-se que grandes cobras são aqui encontradas. Por esta razão os infiéis portugueses não aportam nessas praias e também é dito que é muito quente.” Isso lembra de algum modo a Antártida?

  Uma correlação geral é apresentada a seguir:

  O interessante é que naquela época acreditava-se existir ao sul do Estreito de Magalhães um grande continente, que servia para contrabalançar as terras emersas do Hemisfério Norte. Este continente era chamado "Terra Australis Incognita" (Terra Austral Desconhecida), mas ele não está representado no fragmento que temos do mapa de Piri Reis. O mapa completo poderia então ter um aspecto semelhante ao mapa de Lopo Homem, de 1519:

  O mapa nos mostra como navegadores e cartógrafos viam a “Terra reduzida” no início do século XVI: sem Oceano Pacífico e com a Terra Australis Incognita unindo a América do Sul à Ásia.

. Conclusão

  Tivemos que resumir bastante, para que o artigo não ficasse longo demais, mas esperamos ter despertado interesse suficiente nos internautas para que eles leiam as referências e outros materiais adicionais sobre o assunto. Embora Mallery e Hapgood tenham conduzido estudos sérios, a apropriação do assunto pelos “adeptos do fantástico” com a sua agenda anti-Ciência, acabou por prejudicar a imagem dos dois pesquisadores. O mapa de Piri Reis é usado apenas como um argumento a mais na tentativa de reescrever a história segundo critérios que fogem completamente ao rigor com que a Ciência trabalha.

. Referências

[1] Piri Reis (Wikipedia) (en.wikipedia.org/wiki/Piri_Reis)

[2] Piri Reis map (Wikipedia) (en.wikipedia.org/wiki/Piri_Reis_map)

[3] Piri Reis map (Rational Wiki) (rationalwiki.org/wiki/Piri_Reis_map)

[4] Why the Piri Reis Map is Neither an Enigma Nor Evidence for Ancient Aliens (michaelsheiser.com/PaleoBabble/2013/01/piri-reis-map-enigma-evidence-ancient-aliens/)

[5] Old maps, the Americas and Antarctica (badarchaeology.wordpress.com/2013/01/03/old-maps-the-americas-and-antarctica/)

[6] THE MYSTERIES OF THE PIRI REIS MAP (www.diegocuoghi.com/Piri_Reis/PiriReis_eng.htm)

[7] The Map Behind the Piri Reis Map (drmsh.com/the-map-behind-the-piri-reis-map/)

[8] Mapa de Piri Reis (Wiki Pseudociencia) (es.pseudociencia.wikia.com/wiki/Mapa_de_Piri_Reis)

[9] The Antartida and… Piri Reis Map (www.bibliotecapleyades.net/mapas_pirireis/esp_mapaspirireis04.htm)

[10] Key to the Piri Reis' Map (www.sacred-texts.com/piri/pirikey.htm)

[11] Piri Reis and the Hapgood Hypotheses (www.diegocuoghi.com/Piri_Reis/PiriReis_Hoye-Lunde.htm)

[12] Minds in Ablation Part Five: Charting Imaginary Worlds (www.pibburns.com/smmia5.htm)

[13] Columbus and the Piri Reis Map of 1513 (www.diegocuoghi.com/Piri_Reis/McIntosh/McIntosh_PiriReis.htm)

[14] Maps of the Ancient Sea Kings; Evidence of Advanced Civilization in the Ice Age (members.tripod.com/%7EGlove_r/Hapgood.html)

[15] Como e porque o mapa de Piri Reis não prova que fomos visitados por alienígenas (Olhar Cético,15/06/2015)

[16] A carta náutica de Piri Reis (Piri Reis Haritasi), 1513 (Max Justo Guedes, novembro/93)

No site em 28/07/2017

Atualizado em 04/08/2017, 28/10/2017



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