Home

1005.   Antigos Crânios Peruanos com Buracos Revelam a Perícia dos Incas em Trepanação


  Muito antes da anestesia e do advento de instrumentos médicos de precisão, os humanos já estavam realizando complexas cirurgias uns nos outros no esforço de vencer toda sorte de enfermidades.

  Entre as mais medonhas talvez estivesse o ato de trepanação – no qual partes do crânio eram raspadas, cortadas ou perfuradas para tratar tudo, desde dores de cabeça ou ferimentos até suspeitos de possessão demoníaca.

  Centenas de crânios pré-históricos ostentando denunciadores furos de trepanação têm sido encontrados somente no Peru, remontando tão longe quanto 400 anos AC.

  Apesar de seus métodos pré-históricos, pesquisadores dizem que os antigos neurocirurgiões eram hábeis na tarefa; durante o Império Inca, a taxa de sobrevivência para o procedimento era de aproximadamente o dobro daquela alcançada séculos depois durante a Guerra Civil Americana.

De acordo com um novo estudo publicado no periódico World Neurosurgery, mais de 800 crânios encontrados nos altos Andes do Peru mostram sinais de trepanação, tendo um ou mais buracos cortados cirurgicamente neles

  “Existem ainda muitas incógnitas sobre o procedimento e os indivíduos em que a trepanação foi executada, mas os resultados durante a Guerra Civil Americana foram deploráveis comparados com os da época dos Incas”, disse David S. Kushner, clínico professor de medicina física e reabilitação na Universidade de Miami.

  “Nos tempos dos Incas, a taxa de mortalidade era de 17 a 25 por cento, e durante a Guerra Civil, ela era de 46 a 56 por cento.”

  “Essa é uma grande diferença. A questão é como os antigos cirurgiões peruanos obtiveram resultados que ultrapassaram de longe aqueles dos cirurgiões durante a Guerra Civil Americana?”

  De acordo com um novo estudo publicado no periódico World Neurosurgery, mais de 800 crânios encontrados nos altos Andes do Peru mostram sinais de trepanação, tendo um ou mais buracos cortados cirurgicamente neles.

  Embora se saiba que essa prática aconteceu em todo o mundo, os especialistas dizem que em nenhum lugar se conseguiu chegar mesmo perto da história do Peru com a trepanação.

  As centenas de crânios, a maioria encontrada em sepulturas e durante escavações no final dos anos 1800 e início dos anos 1900, somam mais crânios trepanados do que todos os encontrados no resto do mundo juntos.

  De acordo com os pesquisadores, a higiene provavelmente teve um papel chave no sucesso das cirurgias cranianas pré-históricas do Peru.

  E, ao longo de aproximadamente 2.000 anos, esses antigos cirurgiões refinaram suas técnicas para causar o mínimo dano possível.

  O mesmo não se poderia dizer dos cirurgiões da Guerra Civil, que frequentemente contavam com instrumentos não esterilizados e sondavam os ferimentos na cabeça aberta com os dedos nus.

  Os pesquisadores foram capazes de avaliar a sobrevivência dos pacientes com base em evidência de atividade de cura; em situações onde sinais de cura não estavam presentes, eles assumiram que o paciente morreu durante ou logo depois da cirurgia.

  “Se houvesse uma abertura no crânio eles enfiariam um dedo na ferida e explorariam o interior, procurando por fragmentos de tecido e osso”, disse Kushner, das cirurgias da Guerra Civil.

  “Não sabemos como os antigos peruanos preveniam a infecção, mas parece que eles faziam um bom trabalho nisso”.

  “Tampouco sabemos o que eles usavam como anestésico, mas como havia tantas coisas disponíveis, eles devem ter usado algo – possivelmente folhas de coca.”

Evidência de trepanação pode ser encontrada por todo o mundo, remontando milhares de anos. No procedimento, partes do crânio eram raspadas, cortadas ou perfuradas para tratar tudo, desde dores de cabeça ou ferimentos até suspeitos de possessão demoníaca

  “Talvez houvesse alguma coisa mais, talvez uma bebida fermentada. Não há registros escritos, de modo que nós apenas não sabemos.”

  De acordo com os pesquisadores, os antigos peruanos aprenderam a não cortar a membrana protetora que cobre o cérebro.

  Nos primeiros anos, a taxa de sobrevivência não era grande – de cerca de 400 a 200 AC, era mesmo pior do que aquela na Guerra Civil.

  Mas, as coisas mudaram dramaticamente ao longo de poucos séculos seguintes.

  Do ano 1.000 a 1.400 DC, as taxas de sobrevivência saltaram para algo tão alto quanto 91 por cento em algumas amostras.

  Durante o período Inca, a sobrevivência teve uma média de 75 a 83 por cento.

  “Ao longo do tempo, dos primeiros aos últimos, eles aprenderam quais técnicas eram melhores, e menos prováveis de perfurar a dura”, diz Kushner. 

  “Eles pareceram entender a anatomia da cabeça e intencionalmente evitavam as áreas onde haveria mais sangramento.”

  “Eles também perceberam que trepanações maiores eram menos prováveis de serem bem sucedidas que as menores.”

  “Evidência física definitivamente mostra que esses antigos cirurgiões refinaram o procedimento ao longo do tempo. Seu sucesso é verdadeiramente notável.”

  No ultimo século apenas, a neurocirurgia evoluiu dramaticamente enquanto nosso entendimento da anatomia, fisiologia e patologia do cérebro avança.

  Agora, mesmo a mais invasiva das cirurgias é frequentemente um sucesso.

  “Hoje em dia, as taxas de mortalidade neurocirúrgica são muito, muito baixas; há sempre um risco mas a confiança de um bom resultado é muito alta”, disse Kushner.

  “E assim como no antigo Peru, continuamos a avançar com nossas técnicas cirúrgicas, nossas habilidades, e nosso conhecimento.”

Este kit de instrumentos de aparência medonha foi usado no século 18 por médicos para realizar trepanações

Fonte : Daily Mail, 11/06/2018

Autor : Cheyenne Macdonald



Veja o resumo do artigo no World Neurosurgery:

Trepanation Procedures/Outcomes: Comparison of Prehistoric Peru with Other Ancient, Medieval, and American Civil War Cranial Surgery

More prehistoric trepanned crania have been found in Peru than any other location worldwide. We examine trepanation practices and outcomes in Peru over nearly 2000 years from 400 BC to provide a perspective on the procedure with comparison with procedures/outcomes of other ancient, medieval, and American Civil War cranial surgery. Data on trepanation demographics, techniques, and survival rates were collected through the scientific analysis of more than 800 trepanned crania discovered in Peru, through field studies and the courtesy of museums and private collections in the United States and Peru, over nearly 3 decades. Data on procedures and outcomes of cranial surgery ancient, medieval, and during 19th-century through the American Civil war were obtained via a literature review. Successful trepanations from prehistoric times through the American Civil War likely involved shallow surgeries that did not pierce the dura mater. Although there are regional and temporal variations in ancient Peru, overall long-term survival rates for the study series were about 40% in the earliest period (400–200 BC), with improvement to a high of 91% in samples from AD 1000–1400, to an average of 75%–83% during the Inca Period (AD 1400s–1500). In comparison, the average cranial surgery mortality rate during the American Civil war was 46%–56%, and short- and long-term survival rates are unknown. The contrast in outcomes highlights the astonishing success of ancient cranial surgery in Peru in the treatment of living patients.

Autor : David S. Kushner, John W. Verano, Anne R. Titelbaum

Referência : DOI https://doi.org/10.1016/j.wneu.2018.03.143



Veja também:

Fazendo Buracos no Crânio: Psicocirurgia de Antigamente? (Revista Cérebro & Mente, junho de 1997)

Trepanações em Crânios Neolíticos (Histórias da Medicina Portuguesa, 30/12/2009)

Trepanation in Mesoamerica (Wikipedia)

Inca Skull Surgeons Were "Highly Skilled," Study Finds (National Geographic News, 12/05/2008)

A Hole in the Head II: Trepanation in Peru (Bones Don't Lie, 19/11/2013)

Holes in the Head (Miami News & Events, 08/06/2018)

<p align="center"> <font face="tahoma" size=4> <a href="Menu_alternativo.htm" target="_top"> <font color="ff0000">Voltar para o Menu Alternativo</font> </a> </font> </p>